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sexta-feira, 30 de abril de 2010

FOUCAULT FALA SOBRE O MARQUES DE SADE E O SADISNO


ELE/ELA PUBLICA ENTREVISTA INÉDITA, EM PORTUGUÊS, DO PENSADOR MICHEL FOUCAULT. NA PAUTA, OS PECADOS DO MARQUÊS DE SADE E SUA SACRALIZAÇÃO. TRINTA ANOS DEPOIS, O TEMA PROSSEGUE POLÊMICO!


Michel Foucault nasceu em Poitiers, em 1926, e morreu em Paris, em 1984. Filósofo e professor da cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France, foi sempre um polemista inveterado, do tipo radical e agressivo, encantadoramente inconformista.
Numa entrevista ao crítico Gerard Dupont, publicada em 1976 pela renomada revista francesa Cinematographe, o filósofo faz uma refl exão sobre a obra do Marquês de Sade, sobre o sadismo propriamente dito e suas deformações no cinema. E critica também o que chama de “leituras disciplinadas” baseadas nas experiências do autor de Os 120 Dias de Sodoma, que reduzem sua experimentação com o erotismo a práticas “protofascistas” de controle e destruição do corpo.
 Segundo Foucault, o erotismo sádico é um estímulo para que se invente um novo erotismo, com o corpo, com seus elementos, suas superfícies, seus volumes, suas espessuras. “Um erotismo não-disciplinado, o erotismo do corpo em estado volátil e difuso, com seus encontros afortunados e prazeres incalculáveis” . Trinta anos depois, Michel Foucault continua atual, polêmico e agressivo, sem deixar de lado a jocosidade com que brindava seus espectadores e leitores – para o bem ou para o mal.
Quando você vai ao cinema, sente-se impressionado pelo sadismo das cenas de certas produções, como as de Pier Paolo Pasolini?
Na verdade, sinto-me impressionado pela ausência de sadismo, pela ausência de Sade. Se bem que não são coisas equivalentes: pode haver Sade sem sadismo e sadismo sem Sade. Mas deixemos de lado a questão do sadismo e nos fixemos em Sade. Creio que não há nada que cause mais alergia ao cinema quanto a obra de Sade. Entre as numerosas razões para isso, há que se destacar, primeiro, a meticulosidade, o ritual, a forma do cerimonial (rigoroso) presente em todas as cenas de Sade e que excluem tudo que possa ser visto como jogo suplementar da câmera. A mínima adição, a mínima supressão, o menor entre os menores ornamentos são insuportáveis. Quando algo falta, ou se torna um exagero, é a ruína. Os espaços em branco só devem ser preenchidos por corpos e desejos.
Seria o sadismo no cinema, principalmente, uma maneira de tratar os atores e seus corpos? As mulheres, em particular, não são (mal) tratadas como meros apêndices do corpo masculino?


 Sade foi sempre visto, pelos diretores, como a criada, o porteiro da noite, o limpador de janelas. No final do filme de Pasolini, o que se vê são os suplícios através do vidro de uma janela – o lavador de janelas observa através do vidro o que acontece em um pátio medieval ao longe…
Veja bem… não estou aqui para sacralizar Sade. Depois de tudo, estou disposto a admitir que Sade formulou o erotismo próprio de uma socidade disciplinadora, uma sociedade regulamentadora, anatômica, hierarquizada, com seu tempo cuidadosamente distribuído, seus espaços delimitados, suas obrigações e preocupações. O que desejo é sair desse cenário e, conseqüentemente, do erotismo de Sade. Ultrapassá-lo. É preciso, antes, inventar com o corpo, com seus elementos, suas superfícies, seus volumes, suas espessuras – um erotismo indisciplinado.
Erotismo do corpo em estado volátil e difuso, com seus encontros afortunados e prazeres incalculáveis. O que dá certo fastio é a utilização, nos filmes, do que eu chamo de erotismo protofascista. Talvez até seja o mesmo erotismo de Sade – o que só faria mal à sacralização de sua obra e do próprio Sade, tornando-o cansativo, um disciplinador, um sargento do sexo!
(postado na lista BDSM-SP em abr/2007/adaptação Castelã_SM) 

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